Há muito que defendo que uma unidade de saúde verdadeiramente orientada para a saúde não pode adoecer quem nela confia. Tratar pessoas como diagnósticos, reduzir identidades a números de cama, infantilizar o doente em vez de reconhecer o cidadão, tudo isto revela uma falha estrutural: um sistema que perdeu a sua própria noção de propósito.
Não se trata de distinguir o público do privado. Trata-se de governação. De compreender que a forma como tratamos as pessoas traduz também a forma como gerimos recursos, decisões e instituições. A ausência de dignidade e respeito não é apenas uma falha ética, é um problema de gestão, de produtividade e de sustentabilidade.
Como sublinha a Harvard Medical School, “Respect is an essential component of a high-performance organization. It helps to create a healthy environment in which patients feel cared for as individuals, and members of health care teams are engaged, collaborative, and committed to service.” (Lucian L. Leape,Harvard Medical School – “Setting the Stage: Why Health Care Needs a Culture of Respect”, 2018)
Cada gesto desumanizado prolonga internamentos, agrava dependências e aumenta custos. A ausência de escuta e empatia deteriora fluxos, retarda a recuperação e compromete a confiança. Um sistema que não entende esta relação causa ele próprio doença: nos corpos, nas equipas e na reputação institucional.
Tratar bem não é apenas cuidar. É governar com lucidez. E quem governa com lucidez sabe que saúde, confiança e eficiência são indissociáveis. Uma unidade que trata doenças sem compreender o que adoece o próprio sistema perde a essência da sua missão.
Tratar bem não é um detalhe. É uma forma de governação.
Fragmentos críticos sobre os silêncios que moldam a decisão.